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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Aprender para Ensinar e Ensinar para Aprender

Em conversas com crianças e adolescentes sobre suas preferências escolares, percebe-se que a matemática não está no topo da lista das disciplinas preferidas. O mesmo ocorre entre as professoras das séries iniciais.
 Criou-se o mito de que o bom desempenho nessa disciplina está reservado àqueles dotados de inteligência privilegiada, ou seja, de que a matemática é para os gênios. Assim, empurra-se a disciplina durante toda a trajetória escolar, apenas tentando sair-se bem nas avaliações.
Se olharmos ao redor, no dia-a-dia, veremos em feiras ou nos cruzamentos, crianças usando matemática vendendo, dando troco, repartindo lucros ou mesmo em brincadeiras. Muitas dessas crianças foram consideradas incapazes de aprender e abandonaram a escola.
A partir dessa observação levantam-se algumas questões:

·       Como a escola vem praticando o ensino da matemática com seus alunos?
·       Por que os professores continuam usando o modelo antigo no qual o aluno é apenas o receptor passivo e ele (professor) o repassador dos conteúdos dos livros didáticos?
·       Como a matemática pode ser ensinada para ser uma ferramenta que auxilie na resolução de situações da vida prática e não o monstro pronto a engolir aquele que ouse enfrentá-lo?

Um olhar mais apurado pode nos mostrar que a matemática trabalhada na escola não é a mesma do cotidiano dos alunos, que não encontram relação nenhuma com o que lhes é ensinado e aquilo que praticam no seu dia-a-dia. Os professores, por sua vez, repetem o modelo pelo qual foram ensinados, ou seja, passam um conceito pronto a partir do livro didático, exemplificam esse conceito e esperam dos alunos a repetição desse exemplo.
A maneira como o aluno é apresentado à matemática pelo professor depende muito da relação deste professor com a matemática, isto é, da maneira como este professor tenha sido apresentado à  disciplina no seu tempo de aluno.
Aqueles que acreditam que matemática é para gênios e não sendo, eles próprios, gênios julgam que se o aluno decorar e mecanizar regras, repetindo o que o professor faz, é suficiente para passar de ano.
Outros acreditam que não há aprendizagem sem compreensão e são conscientes de que suas crianças trazem para a sala de aula conhecimentos adquiridos no dia-a-dia. Esses despertarão em seus alunos o prazer da descoberta e do desafio.
Conhecer como seus alunos aprendem, que processos a criança elabora na construção do conhecimento, promover oportunidades para que o maior número possível de relações seja estabelecido, deixar seus alunos descobrirem o mundo e o porquê das coisas e, principalmente incentivá-los a exporem o resultado de suas descobertas, é a função da escola e do professor.
Durante um trabalho de consultoria psicopedagógica institucional, e a partir da queixa levantada pela escola[1] de que muitos de seus alunos já iniciam o ensino fundamental com dificuldades em matemática, e que essas dificuldades só se agravam com o passar das séries, dirigi o foco de minhas observações para o trabalho desenvolvido pelas professoras em sala de aula.
Confesso que fiquei tristemente surpreendida com o despreparo daquelas jovens que se orgulhavam em exibir um diploma de graduação recém-conseguido.
Como não querer que crianças demonstrem dificuldades em matemática já na 1ª série se, ao concluir a Educação Infantil (aos cinco anos), lhes é exigido que trabalhem com o sistema numérico decimal, reconhecendo unidades e dezenas? Nessa idade a criança ainda não consegue pensar por agrupamento. Ela pode até dizer que o número 12 tem uma dezena e duas unidades, mas está apenas repetindo o que a professora quer que ela diga.
Como falar de autonomia a professoras que, por exigência da escola e das famílias, ficam presas ao livro didático, professoras que não percebem suas limitações e que não reconhecem na criança o direito de expressar-se?
Presenciei uma cena em sala de aula, na qual a professora mostra (não ensina) à sua turma como resolver um problema matemático. O caso em questão era a correção do dever de casa que consistia em alguns problemas de transformação de unidades – quilogramas em arrobas e vice-versa, para uma turma de 3º ano. Ela pedia a um aluno que lesse o problema, fazia anotações no quadro e dizia: “é só multiplicar” e fazia o cálculo. Os alunos copiavam as respostas. Em momento algum ela se preocupou em perguntar quem fez ou quem não fez e por que, quem acertou, quem não acertou, quem fez diferente, etc.
A certa altura, uma criança pergunta se é considerada correta uma resposta certa com o cálculo "errado”, ou seja, diferente do que a professora havia proposto. Esta, então comenta com muita doçura na voz: "Só se você for de outro planeta. Se você conseguir isso vou saber que você é um ET."
O que vi foi desconhecimento das bases teóricas sobre o desenvolvimento cognitivo, desconhecimento do uso elementar de material didático como ábaco e material dourado (disponível na escola e até exigido na lista entregue aos pais no início do ano, mas nunca utilizado pelas professoras), desconhecimento do potencial e dos limites de seus alunos e, principalmente, desconhecimento do que elas mesmas não sabiam.
Subtração com reserva, segundo as professoras de 3º e 4º anos, não precisa ser ensinada, pois as crianças já "chegam sabendo".  "Aquele negócio de pedir emprestado? eles é que me ensinaram."
Preocupada foi como me senti. Professoras graduadas, habilitadas ao magistério, como cegos, conduzindo crianças por um caminho escuro e aumentando o número daqueles que vêem a matemática como a esfinge que guarda a entrada para o mundo dos poucos privilegiados que conseguem decifrar seus enigmas.
A escola como meio de desenvolvimento do futuro cidadão, deve estimular em seus alunos os sentimentos de solidariedade, senso crítico e amor pela ciência, além do conhecimento de seus direitos e deveres como indivíduo participante de uma sociedade. Porém, para estimular em seus alunos esses sentimentos, o professor precisa tê-los desenvolvidos dentro de si. Só um professor consciente de sua individualidade e de seus direitos, com senso crítico e autonomia poderá incentivar seus alunos a caminharem com as próprias pernas, com passos firmes em busca de seus objetivos.
Acreditamos que disponibilizar tempo e espaço para que as crianças façam suas descobertas, bem como os professores desempenhem sua verdadeira função, sem repressões ou cobranças, seja um caminho para a formação de cidadãos seguros, conscientes, com opinião própria, capazes de modificar seu futuro.
Não pretendemos apontar culpados, mas apenas deixar um espaço para reflexão sobre a dimensão do trabalho e da responsabilidade da psicopedagogia dentro da escola, numa visão preventiva e tendo como objeto o professor que, estando na posição de ensinante, não se reconhece aprendente e não se apodera do seu próprio não-saber a fim de transformá-lo em saber e fazer-se sujeito autor de seu conhecimento.



[1] O trabalho foi desenvolvido a pedido da escola. Uma Instituição da rede particular de Fortaleza, Ceará.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A Teoria de Maslow e o fracasso escolar

Introdução

O objetivo deste artigo é estabelecer uma relação entre os conceitos relativos à Teoria da Hierarquia das Necessidades do Psicólogo norte-americano Abraham Maslow, e a educação de crianças provenientes de famílias carentes. Analisamos o questionamento dual: a família é carente como consequência do analfabetismo ou os analfabetos são consequência das carências da família?
Não pretendemos oferecer a fórmula mágica para resolver este enigma, mas demonstrar a necessidade da mudança de paradigmas na educação, que se encontram na essência do problema do analfabetismo no Brasil.

As hierarquias de Maslow e as crianças de famílias carentes.

Estabelecendo uma relação entre a Teoria da Hierarquia das Necessidades, de Maslow, e adultos analfabetos observamos que o adulto não alfabetizado está inserido na sociedade, da qual poderá se sentir segregado como consequência do seu despreparo para enfrentar, tanto os mais simples requisitos de qualificação tais como o letramento básico, ou requisitos mais complexos de leitura, escrita e interpretação de conceitos, como acontece em organizações complexas, como indústrias, comércio, serviços e similares.
Obviamente aos nos referirmos ao adulto analfabeto, estamos implicitamente dizendo que houve uma criança que não foi alfabetizada no momento certo e que, com o passar do tempo, transformou-se nesse adulto analfabeto. Isso nos leva a refletir sobre o princípio de causa e efeito aplicado às famílias carentes.
O questionamento neste ponto é: a família é carente como consequência do analfabetismo ou os analfabetos são consequência das carências da família? Infelizmente ambos os questionamentos são corretos. Causas e efeitos se alternam na passagem das gerações. Um círculo vicioso difícil de quebrar, principalmente nas regiões mais pobres do país. Este círculo é continuamente alimentado por um sistema político, social e educacional pernicioso e elitista que discrimina os níveis menos favorecidos através de restrições e agravado pela má utilização e desvio de recursos humanos e materiais, dificultando sobremaneira o acesso ao conhecimento a esses grupos sociais.
Maslow postula, na sua Teoria das Hierarquias, que as necessidades sociais surgem no comportamento, quando as necessidades inferiores (fisiológicas e de segurança) encontram-se relativamente satisfeitas. Entre outras, as necessidades sociais estão relacionadas às necessidades de associação, de participação, de aceitação por parte dos companheiros, de troca de amizade, de afeto e amor.
Uma família carente dificilmente apresenta suas necessidades inferiores satisfeitas, nem sequer em níveis relativos, pois não existe garantia de alimentação, moradia, repouso e segurança física do grupo familiar, entre outras.
Concordamos com Vigotski (2000) quando este afirma que as crianças, bem antes de ingressarem na escola, já trazem uma bagagem de conhecimentos e qualquer situação de aprendizado que nela vivam, será confrontada com uma história prévia.
Nessa situação de subsistência precária onde  os valores morais, sociais e de justiça apresentam-se subvertidos pela própria necessidade de sobreviver, dificilmente a “história previa” terá um final feliz.
Uma criança, fruto desse ambiente, somente poderá encontrar uma saída para seu futuro através da escola e do conhecimento de fatos e situações diferentes daquelas que está acostumado a viver, o que poderá lhe abrir as portas do trabalho e da ascensão social.
O que se espera dessa escola é que possa lhe fornecer as ferramentas necessárias para construir, degrau por degrau, a escada que lhe permitirá a quebra daquele círculo vicioso e a consequente passagem para níveis mais elevados dentro da escala social, subindo na hierarquia das necessidades, promovendo a autoestima e o autodesenvolvimento.
No entanto, a realidade mostra um cenário totalmente diferente onde a escola, principal instrumento para veiculação de conhecimento, não permite que crianças socialmente desfavorecidas se apropriem deste conhecimento, já que não cria as condições mínimas necessárias para que isso ocorra. Respeitando algumas raras exceções a escola que atende à população pobre é de qualidade muito baixa, assim como outros serviços destinados a esta clientela, o que contribui para a produção do fracasso escolar e para agravar o problema, muitos profissionais simplificam a questão colocando sobre a criança a responsabilidade da não aquisição de determinados conhecimentos, rotulando-a de incapaz. Rótulo esse que será levado pelo resto da vida.
A criança que fracassa na escola é vítima deste sistema social e educacional perverso que não lhe oferece as condições necessárias para que se aproprie do conhecimento dito formal. No entanto essa mesma criança é considerada a responsável por seu fracasso e de vítima passa a réu, por esse sistema que não é capaz de admitir seu próprio fracasso.
Essa constatação, não é difícil. Essa criança, com sonhos e esperanças de conseguir na escola a tão almejada saída, encontra-se num beco. A reação é a pior possível. Desalento, insatisfação, desencanto e, além de tudo, um profundo sentimento de frustração.
Esta realidade é observada, com raras exceções, não somente no ensino de alunos de séries superiores, mas principalmente nas séries iniciais, como a alfabetização. E é possível observar também que o fracasso é mais frequente em alunos de camadas sociais mais baixas e as escolas não conseguem, ou não querem enxergar que suas precárias condições de ensino é que são, na realidade, as responsáveis pelo fracasso da criança.     
Enquanto as crianças de classes mais favorecidas têm mais oportunidade de acesso à escola desde cedo, acesso mais fácil a brinquedos e material pedagógico diversificado, além de computador, livros privilegiados pela escola etc., grande parte das crianças pobres vislumbra na escola o lugar privilegiado para acesso a esses bens, tendo, na maioria das vezes, sua expectativa frustrada. Em artigo anterior, expressamos:

“Muitas crianças são identificadas como portadoras de problemas de aprendizagem quando não realizam o que se espera de uma programação de ensino. Se, o rendimento escolar da criança não corresponde às expectativas da família e da própria escola, essa criança passa a ser vista pela família, por professoras e colegas como um fracassado e muitas vezes rotulada como alguém portador de um problema de aprendizagem.” (PISANDELLI, setembro 2003)
               
Qual será a expectativa de ascensão de uma criança, na Hierarquia de Maslow, quando é rotulada como deficiente? Qual modelo poderá escolher essa criança para tomar como referência, para construir seu futuro?
Mais que uma pergunta, isto se constitui em um desafio para todos nós, que embarcamos na luta para mudar essa situação. Não será através de críticas destemperadas ou comentários sarcásticos que o círculo da miséria, ignorância e pobreza será quebrado, mas mediante ações concretas, efetivas, diuturnamente implementadas, independentemente de local, valor ou grandeza.
É na luta do dia a dia contra as forças das correntes que se opõem às mudanças, que essas crianças carentes de hoje serão os homens de bem que construirão o Brasil de amanhã.
Somos plenamente conscientes de que entre muitos problemas que o Brasil tem enfrentar para firmar-se entre as grandes nações, três são especialmente agudos e estão interligados: a pobreza e desemprego, a infância desamparada e a educação.
Mas indubitavelmente, sabemos que da educação de seu povo depende o ingresso ou não, do país no clube das nações desenvolvidas.
E é na escola que as famílias carentes depositam suas esperanças de um futuro, se não melhor, pelo menos diferente para seus filhos.
A missão da escola como principal instrumento da transmissão de conhecimentos, é cumprir a função primordial da educação, isto é, tornar o sujeito capaz de agir conscientemente na transformação do conhecimento.
Essa é a escada que leva o homem a sua ascensão na Hierarquia das Necessidades, de Maslow. Sejamos conscientes disso.

Bibliografia

MASLOW, A. Motivation and Personality, 2nd ed., Harper & Row, 1970.
NORWOOD, G. Maslow's Hierarchy of Needs, http://www.connect.net/georgen/maslow.htm, 1996.
PISANDELLI, G. M. Dificuldades de Aprendizagem: Conseqüência do Despreparo dos Professores? Psicopedagogia On line, São Paulo. Disponível em:  <http:// www.psicopedagogia.com.br/artigos>  2003
PISANDELLI, G. M. A Teoria de Maslow, e sua relação com a educação de adultos Psicopedagogia On line, São Paulo. Disponível em:  <http:// www.psicopedagogia.com.br/artigos>  2003
VIGOTSKI, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2000.