sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

“AS CONFISSÕES DE SCHIMIDT". Uma comparação entre a relação de Warren Schimidt com Ndugu e um educador com seu educando.


Não se pretende aqui fazer uma análise do filme como um todo. A história é uma comédia de costumes que, no entanto, deixa ao expectador mais atento profundos questionamentos a respeito dos verdadeiros valores, daquilo que realmente conta para que, à chegada da velhice, possamos olhar para trás e constatar, com satisfação, que vivemos uma vida completa, que valeu a pena ser vivida, não por termos amealhado bens materiais, mas por termos sido um diferencial na vida de outro.

       Todos nós temos bem gravados na memória um professor ou professora, seja nos primeiros anos de escola, seja em anos mais recentes. Tais lembranças podem ser positivas ou negativas dependendo da postura daquele professor. As lembranças positivas geralmente se devem ao fato do professor ou professora ter-nos ensinado a pensar por nós mesmos, isto é, a tirarmos nossas próprias conclusões das situações que nos eram apresentadas, sem imposições, sem se arvorarem de donos ou donas da verdade absoluta.
       Sem se pretender professor, Warren, também sem perceber, coloca-se na posição de educador. Suas conversas com Ndugu através das cartas inicialmente levam-no a confrontar-se com suas próprias angústias e sonhos não realizados, com sua subjetividade. A partir daí Warren se sente mais livre e passa a conversar com Ndugu como se falasse para si mesmo. E é desse momento em diante que ele passa a ensinar sem perceber que está ensinando e principalmente sem assumir uma postura onipotente de portador da verdade absoluta.
      O professor, para facilitar aos seus alunos uma conexão com seu lado ensinante, precisa, antes de tudo, que ele mesmo esteja conectado à sua porção aprendente.
     As diversas instituições de ensino, em todos os níveis, frequentemente deixam de lado um fator primordial no processo ensino-aprendizagem que é a subjetividade, tanto de alunos como de professores, como instrumento transformador do conhecimento, o que desenvolve a hiperacomodação como modalidade de aprendizagem dos alunos.
      Durante sua viagem pelo país, Warren faz uma volta às suas origens, repensa suas teorias e convicções e por causa de suas vivências e experiências à luz das teorias repensadas, seus conselhos a Ndugu não caem no vazio.
      As experiências devidamente refletidas e analisadas a partir das teorias resultam em aprendizagem na prática e esta só se configura no âmbito da escola quando o professor sai da condição de alguém que não sabe o que quer, para assumir a posição do sujeito que, na sua singularidade, sabe o que quer e qual é seu lugar. Lugar este de sujeito desejante, que se confronta com seu lado aprendente e se dá o direito de não saber, para reconhecer seu saber e autorizar-se sujeito ensinante.
      Através das cartas a Ndugu, Warren entra em contato com sua própria história e com seu verdadeiro EU. Conversando com o garoto como se conversasse consigo mesmo, Warren consegue articular fatores internos que até então estavam latentes e esses fatores é que o fazem olhar para as pessoas e ver além do que os olhos deixam ver. Assim ele consegue receber e dar.
      Muitos professores não têm força suficiente para articular tais fatores internos e não conseguem mudar a realidade, até porque não reconhecem a necessidade de mudança e se cristalizam na posição de repassadores de informação, de detentores absolutos dos saberes para serem ensinados e esquecem de mobilizar dentro de si seus saberes próprios e únicos, adquiridos com a prática e a convivência, que o auxiliarão no difícil processo de ensino. Assim, não conseguem construir a ponte entre aquilo que sabem e seus alunos. Essa ponte é que mostrará aos alunos o prazer que o professor tem em ensinar e despertará neles o prazer de aprender.
      A viagem que Warren Schimidt faz é uma tentativa de dar sentido e razão à sua vida. Porém, sem alguém para compartilhar as (re)-descobertas o objetivo não pode ser alcançado. Para Warren Ndugu passa a ser o outro necessário ao aprendizado. Warren reaprende o valor da vida através de Ndugu e no final ele descobre que fez a diferença para o pequeno garoto, mas sua descoberta maior é que Ndugu lhe ensinou muito mais.
      Considerando-se o processo ensino – aprendizagem reconhece-se o professor como aquele que ensina. Porém, ensinar e aprender são duas ações que estão interligadas; não se pode pensar em uma sem considerar a outra. Quando ensina, o professor aprende, se reconstrói, se modifica. Assim, passamos a considerar o professor, tanto quanto o aluno, como sujeito de sua própria aprendizagem. Uma aprendizagem constante que perpassa toda a vida e que se torna imprescindível para o enfrentamento dos problemas e desafios da atuação docente.
      O ser social é sujeito de sua própria aprendizagem, cuja base é sua história de vida, pois se constrói a partir de seus próprios desejos e de sua capacidade de criar. À medida que o sujeito se apropria do conhecimento para recriá-lo em novas aprendizagens ele se transforma e se liberta, ampliando os próprios saberes.
      Fazendo parte de um todo que é a escola, requer-se do professor uma atuação esclarecida e decidida num processo de constante avaliação e aprimoramento teórico – metodológico. Estando atento à sua própria aprendizagem, poderá ele perceber mais claramente as exigências que se colocam para uma verdadeira aprendizagem por parte de seus alunos. Aprendendo constantemente, o professor estabelece seu próprio modo de ser e de se relacionar, ao mesmo tempo em que configura a sua própria identidade profissional.

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