Nos
cursos de Formação inicial de professores o que se observa é muita ênfase à
teoria e quase nenhuma preocupação com a prática. Os futuros professores não
são ensinados a ensinar. Eles não aprendem como alfabetizar.
Mas, para
saber fazer algo é preciso antes saber o que é esse algo. Então: O que é
Alfabetizar? Como alfabetizar? Qual o melhor método de alfabetização?
Comecemos
pelo começo: Alfabetizar é ensinar o domínio do código alfabético. Nada mais é que
ENSINAR A LER. Dar ao alfabetizando a chave para desvendar
o mistério das letras e possibilitá-lo abrir a porta e adentrar o mundo
letrado.
Porém,
ler é ir além do acesso ao código linguístico. Nisso estamos de acordo com
muitos autores quando afirmam que ler é compreender e aprender a partir do que
lê. No entanto, acreditamos que para ir além das montanhas é preciso passar por
elas primeiro, para chegar ao final da estrada é preciso antes fazer todo o
caminho e para caminhar é preciso dar o primeiro passo.
Então,
como Alfabetizar?
Ler é
basicamente identificar uma palavra. Segundo José Morais1,
a especificidade da alfabetização está em decodificar, ou seja, extrair a pronúncia
ou o sentido de uma palavra a partir dos sinais gráficos (ler) e, no sentido
inverso, codificar, transformar em sinais gráficos os sons correspondentes a
uma palavra (escrever). Ou seja: o que é específico à alfabetização é a
identificação da palavra e não a compreensão, pois esta o alfabetizando já traz
consigo em sua leitura de mundo, independente do nível de escolaridade.
Mas
como proceder à alfabetização em leitura? A resposta que nos ocorre é: Utilizando
métodos ou estratégias de aprendizagem.
Pode-se
definir método como um conjunto de regras e
princípios normativos que regulam uma determinada atividade. No caso em questão,
o ensino da leitura.
Os
métodos de alfabetização podem ser classificados de acordo com o processo que
cada um enfatiza: O processo de análise ou de síntese. Vale ressaltar que
análise e síntese sempre estão associadas. A questão consiste na priorização ou
valorização de um dos aspectos abordados. A análise ou a síntese.
Partindo
do pressuposto acima os métodos de alfabetização historicamente considerados,
agrupam-se em: Método Sintético ou Fônico e Método Analítico ou Global.
Há anos no Brasil discute-se qual o melhor método de alfabetização
e esta discussão pode ser comparada a um “cabo
de guerra”. De um lado o método fônico e do outro o método global.
O método fônico ou sintético parte das letras e dos sons para
formar sílabas, palavras e frases.
Ao contrário, o método global ou analítico consiste na ideia de
partir do todo para as partes, inicia na frase para chegar à palavra. Sua
característica principal é a visualização na qual o aluno é estimulado a
identificar algumas palavras associadas as suas imagens visuais. O
alfabetizando é encorajado a comparar frases e encontrar palavras idênticas ou
sílabas parecidas para que a partir daí, em um processo de dedução, consiga
discriminar os signos gráficos do sistema alfabético. Percebe-se, por suas características,
que o método global centra-se no alfabetizando que, sozinho tem que “descobrir”
as semelhanças entre as palavras ou partes destas e, ainda sozinho, “deduzir”
que tais partes se repetem em outras palavras. Todo o trabalho é feito pelo
aluno que fica com uma carga cognitiva além de suas capacidades.
Ora, aprender
a ler é difícil. O aluno, em seus primeiros passos, necessita de um ensino
diretivo e sistemático que o leve a refletir sobre o funcionamento do sistema de
escrita da língua. E nesse momento a intervenção do educador é de extrema
importância.
O
método fônico favorece o princípio alfabético, isto é, a relação grafema – fonema.
Na alfabetização pelo método fônico o aluno é levado, através da mediação
pelo professor, a analisar os componentes mínimos da palavra – as letras e
relacioná-las aos sons correspondentes. Essa é a chave para a decodificação e a
partir dela o alfabetizando é capaz de ler – e não deduzir - qualquer palavra que se lhe apresente.
Podemos
usar como exemplo as palavras cebola e cabelo. Uma criança alfabetizada pelo
método fônico analisa a primeira letra de cada palavra e percebe que mesmo
sendo a mesma letra ela representa sons diferentes. Procede assim para cada uma
das letras e lê as palavras.
No
método global o alfabetizando é levado a perceber a palavra como um todo, sem
analisar as partes que a compõem. Assim, a criança é apresentada a uma dessas
palavras (Cabelo, por exemplo) diversas vezes até que esta esteja gravada em
sua memória lexical. Finalmente, a criança é capaz do reconhecimento automático
da palavra, mas não por tê-la decodificado e sim por memorização da forma da
palavra. Se à mesma criança for apresentada a palavra Cebola ela vai perceber a
forma idêntica e lerá “Cabelo” (fig. 1).
C a b e l o
C e b o l a
(fig 1)
Essa
criança irá precisar sempre de um apoio, uma gravura ou outra pista do contexto
que lhe “traduza” uma palavra nova até que esta esteja arquivada em sua memória
lexical.
A
leitura por “adivinhação contextual” permite mais “adivinhar” o significado do
que a pronúncia correta da palavra. Vejamos os exemplos – ambos verdadeiros: A
criança foi apresentada à palavra TATU seguida da ilustração correspondente. A
criança viu as letras, reconheceu-as e mentalmente pronunciou os nomes das
mesmas – Tê – A – Tê – U, mas não conseguiu pronunciar-lhes os sons. A
estratégia foi recorrer à gravura. Na região onde a criança vivia, aquele
animal é conhecido por “peba”. Então ela vê a palavra TATU, mas lê “peba”.
Outro exemplo é o da criança que, estimulada a ler a palavra ELE, leu: “banheiro”
e explicou que essa palavra é que estava escrita na porta do banheiro da
escola.
Há
consenso entre muitos autores nacionais e internacionais que na leitura são
utilizadas duas rotas: a fonológica e a lexical.
Na
rota fonológica, a pronúncia da palavra é construída a partir de regras de
correspondência grafo-fonêmica. O acesso ao significado (se houver) é alcançado
depois, quando a forma auditiva da palavra é reconhecida. A rota fonológica é
que nos permite ler palavras desconhecidas ou mesmo pseudopalavras.
A rota
lexical só pode ser utilizada quando a palavra a ser lida já tem sua representação
ortográfica pré-armazenada no léxico mental (repertório ou arquivo de palavras
conhecidas)
Quando
o leitor se depara com uma palavra nova ele a decodifica (usa a rota
fonológica) e a partir daí ela deixa de ser nova e passa a fazer parte de seu
“arquivo” lexical.
Nos
processos iniciais da alfabetização, a memória lexical do alfabetizando é quase
vazia. As poucas palavras que é capaz de reconhecer são aquelas apreendidas
pela leitura logográfica (reconhecida pela forma, pelo “desenho”) como algumas
marcas – NESCAU, COCA-COLA, NINHO, etc. além de seu próprio nome.
Um
leitor iniciante, isto é, um alfabetizando, utiliza basicamente a rota
fonológica. A lexical só pode ser usada quando este encontra uma palavra já
decodificada e armazenada.
Um
leitor proficiente utiliza-se das duas rotas, porém a rota lexical e bem mais
usada, pois sua memória lexical é bastante rica. A rota fonológica só é
acionada quando esse leitor se defronta com uma palavra nova ou pouco frequente
na sua língua que precisa ser decodificada.
Faça
um teste: leia as palavras a seguir:
MEDICINA
– CALEIDOSCÓPIO – OTORRINOLARINGOLOGIA – EXEMPLAR
Essas palavras
são conhecidas e já estão gravadas no seu “arquivo”, por isso você as leu com
facilidade.
Agora
leia:
ARMOGLADIACINOMANIA - TEMPOROMASSETÉRICO
- PSICODISLÉPTICO - TENIOPTERIGÍDEOS - ESPARICEDIFOCLÁCIOS
Essas
são pseudopalavras, palavras desconhecidas ou pouco usadas, às quais você não
tem muita familiaridade e por isso precisou parar para decodificar cada uma. Ao
decodificá-las você usou a subvocalização (sussurrou), pois precisou ouvir-lhes
o som e repeti-las para armazená-las.
Comparando-se
a memória lexical a um arquivo com muitas gavetinhas (uma para cada palavra
aprendida), pelo método global o arquivamento de cada palavra nova é mais
demorado que pelo método fônico, pois se as “pistas” contextuais não existirem
ou não forem suficientes, a palavra não poderá ser “descoberta” naquele momento
e não será arquivada.
O
método fônico dá ao alfabetizando a chave para realmente ler qualquer palavra,
mesmo as que não têm significado. Ao ser apresentada pela primeira vez a
palavra é decodificada (sem a necessidade de pistas do texto) e a partir daí
deixa de ser nova e após várias leituras ela já fica gravada ou “arquivada”. Uma
palavra já arquivada pode ser recuperada facilmente. Esse reconhecimento
automático é que proporciona uma leitura fluente que, por sua vez leva à
compreensão do texto lido.
Não se
pretende aqui afirmar que o método global não funciona. Porém, é comprovado que
sua aplicação sobrecarrega a memória cognitiva do
alfabetizando que ainda se encontra em processo de construção do seu léxico.
Sabemos que essa construção acontece e se fortalece a partir das relações interpessoais
da criança ao fazer uso social da língua. Então, para que a criança
aprenda a partir dele é necessário que ela esteja imersa em um meio que
favoreça a leitura. Onde ela possa ter acesso a material impresso variado e
conviva com adultos usuários de um padrão culto de linguagem que a ajudem no
reconhecimento de palavras novas. Isso ocorre nas classes sociais mais
abastadas.
Professores
que lidam com crianças das escolas públicas, oriundas de meios sociais menos
favorecidos, são testemunhas de que a alfabetização pelo método fônico amplia
as oportunidades dessas crianças de se apropriarem das ferramentas que a
leitura proporciona. Essas ferramentas é que são as responsáveis pela inserção
no mundo letrado.
O
objetivo da alfabetização é ensinar a ler e formar leitores proficientes, porém
para atingirmos esse objetivo não devemos esquecer do processo.
O
mestre não leva seu discípulo a adentrar a mansão de seu saber, não o faz ver o
que seus olhos veem. Antes ele o ensina a trilhar o caminho que o conduz à sua
própria mansão, a ver com seus próprios olhos e desvendar, por si mesmo, o
maravilhoso mundo das palavras.
1 Prof. José
Morais: Português, professor da
Universidade Livre de Bruxelas. Atualmente consultor do governo de Portugal
para questões de Alfabetização – Programas de Ensino e Avaliação
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