Introdução
O objetivo deste artigo é
estabelecer uma relação entre os conceitos relativos à Teoria da Hierarquia das
Necessidades do Psicólogo norte-americano Abraham Maslow, e a educação de
crianças provenientes de famílias carentes. Analisamos o questionamento dual: a
família é carente como consequência do analfabetismo ou os analfabetos são
consequência das carências da família?
Não pretendemos oferecer a
fórmula mágica para resolver este enigma, mas demonstrar a necessidade da
mudança de paradigmas na educação, que se encontram na essência do problema do
analfabetismo no Brasil.
As hierarquias de Maslow e as crianças de famílias
carentes.
Estabelecendo uma relação entre a
Teoria da Hierarquia das Necessidades, de Maslow, e adultos analfabetos
observamos que o adulto não
alfabetizado está inserido na sociedade, da qual poderá se sentir segregado
como consequência do seu despreparo para enfrentar, tanto os mais simples
requisitos de qualificação tais como o letramento básico, ou requisitos mais
complexos de leitura, escrita e interpretação de conceitos, como acontece em
organizações complexas, como indústrias, comércio, serviços e similares.
Obviamente aos nos referirmos ao
adulto analfabeto, estamos implicitamente dizendo que houve uma criança que não
foi alfabetizada no momento certo e que, com o passar do tempo, transformou-se
nesse adulto analfabeto. Isso nos leva a refletir sobre o princípio de causa e
efeito aplicado às famílias carentes.
O questionamento neste ponto é: a
família é carente como consequência do analfabetismo ou os analfabetos são
consequência das carências da família? Infelizmente ambos os questionamentos
são corretos. Causas e efeitos se alternam na passagem das gerações. Um círculo
vicioso difícil de quebrar, principalmente nas regiões mais pobres do país.
Este círculo é continuamente alimentado por um sistema político, social e
educacional pernicioso e elitista que discrimina os níveis menos favorecidos
através de restrições e agravado pela má utilização e desvio de recursos
humanos e materiais, dificultando sobremaneira o acesso ao conhecimento a esses
grupos sociais.
Maslow postula, na sua Teoria das
Hierarquias, que as necessidades sociais surgem no comportamento, quando as
necessidades inferiores (fisiológicas e de segurança) encontram-se
relativamente satisfeitas. Entre outras, as necessidades sociais estão
relacionadas às necessidades de associação, de participação, de aceitação por
parte dos companheiros, de troca de amizade, de afeto e amor.
Uma família carente dificilmente
apresenta suas necessidades inferiores satisfeitas, nem sequer em níveis
relativos, pois não existe garantia de alimentação, moradia, repouso e
segurança física do grupo familiar, entre outras.
Concordamos com Vigotski (2000)
quando este afirma que as crianças, bem antes de ingressarem na escola, já
trazem uma bagagem de conhecimentos e qualquer situação de aprendizado que nela
vivam, será confrontada com uma história prévia.
Nessa situação de subsistência
precária onde os valores morais, sociais
e de justiça apresentam-se subvertidos pela própria necessidade de sobreviver,
dificilmente a “história previa” terá um final feliz.
Uma criança, fruto desse
ambiente, somente poderá encontrar uma saída para seu futuro através da escola
e do conhecimento de fatos e situações diferentes daquelas que está acostumado
a viver, o que poderá lhe abrir as portas do trabalho e da ascensão social.
O que se espera dessa escola é
que possa lhe fornecer as ferramentas necessárias para construir, degrau por
degrau, a escada que lhe permitirá a quebra daquele círculo vicioso e a
consequente passagem para níveis mais elevados dentro da escala social, subindo
na hierarquia das necessidades, promovendo a autoestima e o
autodesenvolvimento.
No entanto, a realidade mostra um
cenário totalmente diferente onde a escola, principal instrumento para
veiculação de conhecimento, não permite que crianças socialmente desfavorecidas
se apropriem deste conhecimento, já que não cria as condições mínimas necessárias
para que isso ocorra. Respeitando algumas raras exceções a escola que atende à
população pobre é de qualidade muito baixa, assim como outros serviços
destinados a esta clientela, o que contribui para a produção do fracasso
escolar e para agravar o problema, muitos profissionais simplificam a questão
colocando sobre a criança a responsabilidade da não aquisição de determinados
conhecimentos, rotulando-a de incapaz. Rótulo esse que será levado pelo resto
da vida.
A criança que fracassa na escola
é vítima deste sistema social e educacional perverso que não lhe oferece as
condições necessárias para que se aproprie do conhecimento dito formal. No
entanto essa mesma criança é considerada a responsável por seu fracasso e de
vítima passa a réu, por esse sistema que não é capaz de admitir seu próprio
fracasso.
Essa constatação, não é difícil.
Essa criança, com sonhos e esperanças de conseguir na escola a tão almejada
saída, encontra-se num beco. A reação é a pior possível. Desalento,
insatisfação, desencanto e, além de tudo, um profundo sentimento de frustração.
Esta realidade é observada, com
raras exceções, não somente no ensino de alunos de séries superiores, mas
principalmente nas séries iniciais, como a alfabetização. E é possível observar
também que o fracasso é mais frequente em alunos de camadas sociais mais baixas
e as escolas não conseguem, ou não querem enxergar que suas precárias condições
de ensino é que são, na realidade, as responsáveis pelo fracasso da criança.
Enquanto as crianças de classes mais favorecidas têm mais oportunidade
de acesso à escola desde cedo, acesso mais fácil a brinquedos e material
pedagógico diversificado, além de computador, livros privilegiados pela escola etc.,
grande parte das crianças pobres vislumbra na escola o lugar privilegiado para
acesso a esses bens, tendo, na maioria das vezes, sua expectativa frustrada. Em
artigo anterior, expressamos:
“Muitas
crianças são identificadas como portadoras de problemas de aprendizagem quando
não realizam o que se espera de uma programação de ensino. Se, o rendimento
escolar da criança não corresponde às expectativas da família e da própria
escola, essa criança passa a ser vista pela família, por professoras e colegas
como um fracassado e muitas vezes rotulada como alguém portador de um problema
de aprendizagem.” (PISANDELLI, setembro 2003)
Qual será a expectativa de
ascensão de uma criança, na Hierarquia de Maslow, quando é rotulada como
deficiente? Qual modelo poderá escolher essa criança para tomar como
referência, para construir seu futuro?
Mais que uma pergunta, isto se
constitui em um desafio para todos nós, que embarcamos na luta para mudar essa
situação. Não será através de críticas destemperadas ou comentários sarcásticos
que o círculo da miséria, ignorância e pobreza será quebrado, mas mediante
ações concretas, efetivas, diuturnamente implementadas, independentemente de
local, valor ou grandeza.
É na luta do dia a dia contra as
forças das correntes que se opõem às mudanças, que essas crianças carentes de
hoje serão os homens de bem que construirão o Brasil de amanhã.
Somos plenamente conscientes de que entre muitos problemas que o Brasil
tem enfrentar para firmar-se entre as grandes nações, três são especialmente
agudos e estão interligados: a pobreza e desemprego, a infância desamparada e a
educação.
Mas indubitavelmente, sabemos que da educação de seu povo depende o
ingresso ou não, do país no clube das nações desenvolvidas.
E é na escola que as famílias carentes depositam suas esperanças de um
futuro, se não melhor, pelo menos diferente para seus filhos.
A missão da escola como principal
instrumento da transmissão de conhecimentos, é cumprir a função primordial da
educação, isto é, tornar o sujeito capaz de agir conscientemente na
transformação do conhecimento.
Essa é a escada que leva o homem
a sua ascensão na Hierarquia das Necessidades, de Maslow. Sejamos conscientes
disso.
Bibliografia
MASLOW, A. Motivation and Personality, 2nd ed., Harper
& Row, 1970.
PISANDELLI, G. M. Dificuldades de Aprendizagem: Conseqüência do
Despreparo dos Professores? Psicopedagogia On line, São Paulo. Disponível
em: <http:// www.psicopedagogia.com.br/artigos> 2003
PISANDELLI, G. M. A Teoria de Maslow, e sua
relação com a educação de adultos Psicopedagogia On line, São Paulo.
Disponível em: <http:// www.psicopedagogia.com.br/artigos> 2003
VIGOTSKI, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins
Fontes, 2000.
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