Em
conversas com crianças e adolescentes sobre suas preferências escolares,
percebe-se que a matemática não está no topo da lista das disciplinas
preferidas. O mesmo ocorre entre as professoras das séries iniciais.
Criou-se o mito de que o bom desempenho nessa
disciplina está reservado àqueles dotados de inteligência privilegiada, ou
seja, de que a matemática é para os gênios. Assim, empurra-se a disciplina
durante toda a trajetória escolar, apenas tentando sair-se bem nas avaliações.
Se
olharmos ao redor, no dia-a-dia, veremos em feiras ou nos cruzamentos, crianças
usando matemática vendendo, dando troco, repartindo lucros ou mesmo em brincadeiras.
Muitas dessas crianças foram consideradas incapazes de aprender e abandonaram a
escola.
A
partir dessa observação levantam-se algumas questões:
· Como a escola vem praticando o ensino
da matemática com seus alunos?
· Por que os professores continuam
usando o modelo antigo no qual o aluno é apenas o receptor passivo e ele
(professor) o repassador dos conteúdos dos livros didáticos?
· Como a matemática pode ser ensinada
para ser uma ferramenta que auxilie na resolução de situações da vida prática e
não o monstro pronto a engolir aquele que ouse enfrentá-lo?
Um
olhar mais apurado pode nos mostrar que a matemática trabalhada na escola não é
a mesma do cotidiano dos alunos, que não encontram relação nenhuma com o que
lhes é ensinado e aquilo que praticam no seu dia-a-dia. Os professores, por sua
vez, repetem o modelo pelo qual foram ensinados, ou seja, passam um conceito
pronto a partir do livro didático, exemplificam esse conceito e esperam dos
alunos a repetição desse exemplo.
A
maneira como o aluno é apresentado à matemática pelo professor depende muito da
relação deste professor com a matemática, isto é, da maneira como este
professor tenha sido apresentado à disciplina no seu tempo de aluno.
Aqueles
que acreditam que matemática é para gênios e não sendo, eles próprios, gênios
julgam que se o aluno decorar e mecanizar regras, repetindo o que o professor
faz, é suficiente para passar de ano.
Outros
acreditam que não há aprendizagem sem compreensão e são conscientes de que suas
crianças trazem para a sala de aula conhecimentos adquiridos no dia-a-dia.
Esses despertarão em seus alunos o prazer da descoberta e do desafio.
Conhecer
como seus alunos aprendem, que processos a criança elabora na construção do
conhecimento, promover oportunidades para que o maior número possível de
relações seja estabelecido, deixar seus alunos descobrirem o mundo e o porquê
das coisas e, principalmente incentivá-los a exporem o resultado de suas
descobertas, é a função da escola e do professor.
Durante
um trabalho de consultoria psicopedagógica institucional, e a partir da queixa
levantada pela escola[1]
de que muitos de seus alunos já iniciam o ensino fundamental com dificuldades
em matemática, e que essas dificuldades só se agravam com o passar das séries,
dirigi o foco de minhas observações para o trabalho desenvolvido pelas
professoras em sala de aula.
Confesso
que fiquei tristemente surpreendida com o despreparo daquelas jovens que se
orgulhavam em exibir um diploma de graduação recém-conseguido.
Como
não querer que crianças demonstrem dificuldades em matemática já na 1ª série
se, ao concluir a Educação Infantil (aos cinco anos), lhes é exigido que
trabalhem com o sistema numérico decimal, reconhecendo unidades e dezenas?
Nessa idade a criança ainda não consegue pensar por agrupamento. Ela pode até
dizer que o número 12 tem uma dezena e duas unidades, mas está apenas repetindo
o que a professora quer que ela diga.
Como
falar de autonomia a professoras que, por exigência da escola e das famílias,
ficam presas ao livro didático, professoras que não percebem suas limitações e
que não reconhecem na criança o direito de expressar-se?
Presenciei
uma cena em sala de aula, na qual a professora mostra (não ensina) à sua turma
como resolver um problema matemático. O caso em questão era a correção do dever
de casa que consistia em alguns problemas de transformação de unidades – quilogramas
em arrobas e vice-versa, para uma turma de 3º ano. Ela pedia a um aluno que
lesse o problema, fazia anotações no quadro e dizia: “é só multiplicar” e fazia
o cálculo. Os alunos copiavam as respostas. Em momento algum ela se preocupou
em perguntar quem fez ou quem não fez e por que, quem acertou, quem não
acertou, quem fez diferente, etc.
A
certa altura, uma criança pergunta se é considerada correta uma resposta certa
com o cálculo "errado”, ou seja, diferente do que a professora
havia proposto. Esta, então comenta com muita doçura na voz: "Só se
você for de outro planeta. Se você conseguir isso vou saber que você é um
ET."
O que
vi foi desconhecimento das bases teóricas sobre o desenvolvimento cognitivo,
desconhecimento do uso elementar de material didático como ábaco e material
dourado (disponível na escola e até exigido na lista entregue aos pais no
início do ano, mas nunca utilizado pelas professoras), desconhecimento do
potencial e dos limites de seus alunos e, principalmente, desconhecimento do
que elas mesmas não sabiam.
Subtração
com reserva, segundo as professoras de 3º e 4º anos, não precisa ser ensinada,
pois as crianças já "chegam sabendo". "Aquele negócio de pedir emprestado? eles
é que me ensinaram."
Preocupada
foi como me senti. Professoras graduadas, habilitadas ao magistério, como
cegos, conduzindo crianças por um caminho escuro e aumentando o número daqueles
que vêem a matemática como a esfinge que guarda a entrada para o mundo dos
poucos privilegiados que conseguem decifrar seus enigmas.
A
escola como meio de desenvolvimento do futuro cidadão, deve estimular em seus
alunos os sentimentos de solidariedade, senso crítico e amor pela ciência, além
do conhecimento de seus direitos e deveres como indivíduo participante de uma
sociedade. Porém, para estimular em seus alunos esses sentimentos, o professor
precisa tê-los desenvolvidos dentro de si. Só um professor consciente de sua
individualidade e de seus direitos, com senso crítico e autonomia poderá
incentivar seus alunos a caminharem com as próprias pernas, com passos firmes
em busca de seus objetivos.
Acreditamos
que disponibilizar tempo e espaço para que as crianças façam suas descobertas,
bem como os professores desempenhem sua verdadeira função, sem repressões ou
cobranças, seja um caminho para a formação de cidadãos seguros, conscientes,
com opinião própria, capazes de modificar seu futuro.
Não
pretendemos apontar culpados, mas apenas deixar um espaço para reflexão sobre a
dimensão do trabalho e da responsabilidade da psicopedagogia dentro da escola,
numa visão preventiva e tendo como objeto o professor que, estando na posição
de ensinante, não se reconhece aprendente e não se apodera do seu próprio
não-saber a fim de transformá-lo em saber e fazer-se sujeito autor de seu
conhecimento.
[1]
O trabalho foi
desenvolvido a pedido da escola. Uma Instituição da rede particular de
Fortaleza, Ceará.
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