quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Diagnóstico Psicopedagógico

O mundo do aprender é realmente muito complexo, pois se trata de um processo dinâmico e dialético, num contínuo dar e receber, perpassado pelas várias inter-relações construídas através das interações inter e intrapessoais presentes em cada grupo do qual o ser que aprende e o ser que ensina fazem parte.
Neste processo dialético complexo os papéis não são fixos e não existem apenas um aprendente e um ensinante. Cada membro do grupo assume um desses papéis segundo as exigências da situação como expressa Pichon-Rivière em sua teoria de grupo operativo.
Aquele que, no momento, faz o papel de ensinante, só conseguirá exercer sua função quando ele mesmo tenha-se apropriado do saber. Saber-se sujeito único, com características próprias e ao mesmo tempo reconhecer-se sujeito que pertence a um grupo e que sua subjetividade interfere positiva ou negativamente ao interagir com o ser que aprende ao construir seu próprio saber.
Ciente desta dinamicidade, o psicopedagogo ao iniciar o processo diagnóstico, deve levar em conta o que WEISS denomina de grandes eixos da análise.

Horizontal  -  A visão do presente. O "aqui e agora comigo" (e eu diria "o aqui e agora comigo e contigo")
Vertical  -  A visão do passado na construção do sujeito.

Em sua Teoria de Grupo Operativo, Pichon-Rivière também menciona a intersecção destes dois eixos como ponto de partida para a análise da real pertinência do sujeito ao grupo.
Segundo Rivière, o eixo horizontal refere-se à história do sujeito dentro do grupo, as relações e inter-relações do sujeito com os demais membros desse grupo. O eixo vertical é a história do sujeito como ser individualizado, ou seja, é a bagagem de experiências acumuladas na passagem pelos diversos grupos ao longo da vida (família, escola, amigos,trabalho, sociedade,etc.).
Portanto, o psicopedagogo não deve esquecer que o cliente é um ser inserido em um contexto e que seu trabalho deve considerar sempre todas as ramificações construídas por esta contextualização.
Quando o indivíduo procura terapia, traz consigo toda esta bagagem histórica e aí cabe ao profissional lançar sobre este indivíduo e sua queixa um olhar aberto e procurar ver nas entrelinhas da sua história o quanto esta bagagem interfere e sofre interferência das relações com os que lhe rodeiam, quer na escola ou na família.
É sempre a partir desse ponto de intersecção que o psicopedagogo deve iniciar seu processo de diagnóstico sem deixar de lado também sua própria subjetividade. Não deve esquecer que a partir do momento em que entra na relação professor / aluno - família / criança é para criar o conflito que irá fazer aflorar os reais motivos das dificuldades surgidas naquela relação. Tal conflito obrigará tanto ensinante como aprendente a olharem para dentro de si mesmos, reconhecerem-se e aceitarem-se e, assim procurarem o equilíbrio. Deve o profissional, no entanto, ter o cuidado de não se envolver nesse conflito, de não deixar que sua própria subjetividade interfira e mascare o diagnóstico.
Não se envolver não significa porém, ser indiferente e usar o diagnóstico para rotular.  Aquele olhar aberto mencionado antes é o que Alicia Fernández chama de "olhar-conhecer através" para criar a cumplicidade e estabelecer a confiança e o vínculo necessários à elaboração do diagnóstico.

"Uma tarefa primordial no diagnóstico é resgatar o amor. Em geral, os terapeutas tendem a carregar nas tintas sobre o desamor, sobre o que falta, e poucas vezes se evidencia o que tem e onde o amor é resgatável. Sem dúvida, isto é o que nos importa no caminho para a cura."  Sara Paín
           


REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS


·       FERNANDEZ, Alícia.  A Inteligência Aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

·       HOLANDA, Helena Cláudia Frota de. Pichon-Rivière - Teoria do Vínculo. Apostila, Mimeo.

·       PAíN, Sara. Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.


·       WEISS, Maria Lúcia L. Psicopedagogia Clínica: Uma visão diagnóstica. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.



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