Neste processo dialético complexo os papéis não são fixos e não existem
apenas um aprendente e um ensinante. Cada membro do grupo assume um desses
papéis segundo as exigências da situação como expressa Pichon-Rivière em sua
teoria de grupo operativo.
Aquele que, no momento, faz o papel de ensinante, só conseguirá exercer
sua função quando ele mesmo tenha-se apropriado do saber. Saber-se sujeito único,
com características próprias e ao mesmo tempo reconhecer-se sujeito que
pertence a um grupo e que sua subjetividade interfere positiva ou negativamente
ao interagir com o ser que aprende ao construir seu próprio saber.
Ciente desta dinamicidade, o psicopedagogo ao iniciar o processo
diagnóstico, deve levar em conta o que WEISS denomina de grandes eixos da
análise.
Horizontal - A visão do presente. O "aqui e
agora comigo" (e eu diria "o aqui e agora comigo e contigo")
Vertical - A visão do passado na construção do
sujeito.
Em sua Teoria de Grupo Operativo, Pichon-Rivière também menciona a
intersecção destes dois eixos como ponto de partida para a análise da real
pertinência do sujeito ao grupo.
Segundo Rivière, o eixo horizontal refere-se à história do sujeito dentro
do grupo, as relações e inter-relações do sujeito com os demais membros desse
grupo. O eixo vertical é a história do sujeito como ser individualizado, ou
seja, é a bagagem de experiências acumuladas na passagem pelos diversos grupos
ao longo da vida (família, escola, amigos,trabalho, sociedade,etc.).
Portanto, o psicopedagogo não deve esquecer que o cliente é um ser
inserido em um contexto e que seu trabalho deve considerar sempre todas as
ramificações construídas por esta contextualização.
Quando o indivíduo procura terapia, traz consigo toda esta bagagem
histórica e aí cabe ao profissional lançar sobre este indivíduo e sua queixa um
olhar aberto e procurar ver nas entrelinhas da sua história o quanto esta
bagagem interfere e sofre interferência das relações com os que lhe rodeiam,
quer na escola ou na família.
É sempre a partir desse ponto de intersecção que o psicopedagogo deve
iniciar seu processo de diagnóstico sem deixar de lado também sua própria
subjetividade. Não deve esquecer que a partir do momento em que entra na
relação professor / aluno - família / criança é para criar o conflito que irá
fazer aflorar os reais motivos das dificuldades surgidas naquela relação. Tal
conflito obrigará tanto ensinante como aprendente a olharem para dentro de si
mesmos, reconhecerem-se e aceitarem-se e, assim procurarem o equilíbrio. Deve o
profissional, no entanto, ter o cuidado de não se envolver nesse conflito, de
não deixar que sua própria subjetividade interfira e mascare o diagnóstico.
Não se envolver não significa porém, ser indiferente e usar o diagnóstico
para rotular. Aquele olhar aberto
mencionado antes é o que Alicia Fernández chama de "olhar-conhecer através" para criar a cumplicidade e
estabelecer a confiança e o vínculo necessários à elaboração do diagnóstico.
"Uma tarefa primordial no diagnóstico é resgatar
o amor. Em geral, os terapeutas tendem a carregar nas tintas sobre o desamor,
sobre o que falta, e poucas vezes se evidencia o que tem e onde o amor é
resgatável. Sem dúvida, isto é o que nos importa no caminho para a cura." Sara
Paín
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
·
FERNANDEZ,
Alícia. A Inteligência Aprisionada.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
·
HOLANDA, Helena
Cláudia Frota de. Pichon-Rivière - Teoria do Vínculo. Apostila, Mimeo.
·
PAíN, Sara.
Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1985.
·
WEISS, Maria
Lúcia L. Psicopedagogia Clínica: Uma visão diagnóstica. Rio de Janeiro:
DP&A, 2001.

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