terça-feira, 15 de abril de 2014

Alfabetização e Letramento

Polêmicas à parte, vamos direto ao assunto.

Alfabetizar não é nada mais, nada menos que ensinar a ler e escrever. Simples assim.

Ler é basicamente identificar uma palavra. Segundo José Morais[1] a especificidade da alfabetização está em decodificar, ou seja, extrair a pronúncia ou o sentido de uma palavra a partir dos sinais gráficos (ler) e, no sentido inverso, codificar, transformar em sinais gráficos os sons correspondentes a uma palavra (escrever).
Então, para aprender a ler e escrever o aluno precisa relacionar as letras com os sons que elas representam e vice versa, para codificar ou para decodificar, essa é a especificidade da alfabetização. Concluindo: alfabetização é a apropriação do código escrito.
Segundo Magda Soares, a parte específica do processo de aprender a ler e a escrever é aprender as relações entre fonemas e grafemas, para codificar e decodificar. Isso envolve também uma série de aspectos técnicos como: aprender a segurar num lápis, aprender que se escreve de cima para baixo e da esquerda para direita, etc.
Porém, alfabetizar não é apenas ensinar a codificar e decodificar. Além dessas competências, o professor alfabetizador ensina também seu aluno a pensar e refletir sobre o que acontece dentro da palavra, isto é, fazer a análise dos segmentos sonoros da palavra. Assim, a apropriação do sistema alfabético de escrita se dá de maneira significativa.
A consciência fonológica, ou seja, a habilidade metalinguística de tomada de consciência de que a língua falada pode ser segmentada em unidades distintas, ou seja, que a frase pode ser segmentada em palavras, as palavras em sílabas e as sílabas em fonemas e de que essas mesmas unidades repetem-se em diferentes palavras faladas; bem como a consciência fonêmica, que é uma parte mais refinada da consciência fonológica e se refere às relações entre grafemas e fonemas, são competências fundamentais para que ocorra a alfabetização.
Ao desenvolver a consciência fonêmica o aluno atinge o nível alfabético de escrita e dá um grande avanço no processo de alfabetização. Mas, ainda não está alfabetizado.
Pode ser considerado alfabetizado o aluno que lê um texto simples, escreve um texto simples, entende o que lê e entende o que escreve.
Entender o que lê (sozinho) e aprender a partir daí, inserir-se na cultura letrada, utilizar-se das práticas de leitura, escrita e oralidade para caminhar e explorar o mundo, usar a leitura, a escrita e a capacidade de expressão oral como ferramentas para mudar sua realidade, é o que dizemos Letramento.
Ao ingressar na escola, o aluno já traz consigo uma bagagem, maior ou menor, segundo seu meio social, que lhe proporcione uma leitura de mundo. Ele necessita agora apropriar-se da leitura da palavra, compreender seu significado e dar-lhe força. Aí aquela bagagem vai sendo enriquecida a cada nova palavra, novo significado e nova força.
O Letramento se inicia no momento em que o sujeito ingressa no mundo e se relaciona com seus iguais através das expressões culturais, toma força quando este sujeito chega à escola e se apropria da palavra e se aperfeiçoa à medida que avança nas práticas que a leitura lhe proporciona. Letramento não tem fim. Quanto mais se lê, mais se aprende e se transforma.
Alfabetização é um processo que se inicia na escola, ainda na Educação Infantil e se encerra quando o aluno se apropria daquelas competências já descritas acima.
Alfabetizar letrando não significa que Alfabetização e Letramento sejam a mesma coisa. A alfabetização é um momento do letramento. Não se esgota na decodificação, pois é esse momento que vai definir como (ou se) o aluno conseguirá movimentar-se no mundo letrado e fazer seu próprio caminho.
O professor alfabetizador ensina seu aluno a ler e escrever desenvolvendo a reflexão metalinguística, mostra-lhe os caminhos da leitura, enriquecendo seu vocabulário e ensinado-o estratégias de compreensão e uso da metacognição. Seu trabalho não se encerra com o ensino da decodificação, mas ele não pula esse passo, pois sabe que se seu aluno deve chegar além das montanhas, antes ele precisa passar por elas.
O professor não perde o foco do objetivo, que é fazer de seu aluno um leitor autônomo. Porém ele sabe que para trilhar todo o caminho, o primeiro passo é essencial, que para ser um leitor autônomo seu aluno precisa antes aprender a ler.




  [1] Prof. José Morais: Português, professor da Universidade Livre de Bruxelas. Atualmente consultor do governo de Portugal para questões de Alfabetização – Programas de Ensino e Avaliação

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