
A libertação da inteligência aprisionada, somente poderá dar-se através do encontro com o perdido prazer de aprender. Por tal razão cremos que nossa principal tarefa com relação aos pacientes é ajudá-los a recuperar o prazer de aprender; e da mesma forma pretendemos, para nós mesmos, recuperar o prazer de trabalhar aprendendo e de aprender trabalhando.
Alícia Fernandez
É comum ouvir de
professores e professoras que tal aluno não aprende por que não tem interesse.
A eles e elas respondo que estão meio certos. Realmente os alunos precisam de
interesse, mas não é o que lhes falta. Na verdade eles já o têm e não sabem porque
está guardado, escondidinho lá dentro. O que é preciso é um estímulo que faça
germinar esse interesse, como o adubo e a água fazem germinar a semente
escondida na terra.
Se o interesse não
é aparente é por que não há desejo. Então, é preciso despertar esse desejo.
Há poucos dias
postamos uma foto com duas frases que explicam bem o que digo:
Segundo Howard
Gardner, “Todos os indivíduos têm potencial para ser criativos, mas só serão se
o desejarem” e Françoise Dolto responde: “Nosso papel não é o de desejar algo
para alguém, mas o de ser aquele graças a quem ele pode chegar até seu desejo.”
Concordo com Dolto.
O interesse – e com ele o desejo – está latente dentro de cada um e cabe a nós
professores sermos o instrumento pelo qual nosso aluno descubra seu desejo de
aprender. Mas para isso é necessário que descubramos nosso desejo de ensinar.
Em um texto da
psicopedagoga argentina Alícia Fernandez, uma garotinha tentando explicar para
a irmã o que é aprender diz:
É... como quando papai me ensinou a andar de
bicicleta. Eu queria muito andar de bicicleta. Então... papai me deu uma
bici... menor do que a dele. Ajudou-me a subir. A bici sozinha cai, tem que
segurar andando...
Dá um pouco de medo, mas papai segurou a bici. Ele
não subiu na bicicleta grande e disse: "Assim se anda de bici...”, não,
ele ficou correndo ao meu lado sempre segurando a bici... muitos dias, de
repente, sem que eu me desse conta disso, soltou a bici e seguiu correndo ao
meu lado. Então eu disse: “Ah! Aprendi!".
Assim como o pai da garotinha, o professor não
precisa fazer pelo aluno. Antes, ele o acompanha, segue ao seu lado, estimula-o,
encoraja-o e desafia-o dentro de seus limites.
O bom aluno teve um
bom professor. O que faz um professor ser bom? Dominar bem o conteúdo, dizem
alguns. Ser amigo dos alunos, dizem outros. “Botar moral”, acrescentam também.
Estão certos todos.
Um bom professor tem que saber o que vai ensinar, tem que conhecer como seus
alunos aprendem para ensiná-los e tem que saber por ordem na casa. Mas o bom
professor tem que ter antes de tudo o desejo de ensinar.
O sociólogo suíço
Phelippe Perrenoud afirma que o sucesso e o fracasso escolar não dependem
unicamente do ambiente da escola. Na sua visão, o objetivo de ensinar é
preparar o aluno e torná-lo capaz de mobilizar suas aquisições escolares fora
da escola, independentemente de quaisquer situações.
Perrenoud critica
os cursos de formação inicial de professores por não considerarem o aluno - futuro
professor - e sua subjetividade e por não tratarem, com a devida importância,
questões essenciais para a prática profissional. Entre outras questões, que
chama de não ditos, o autor cita o medo, a sedução, o poder, o conflito, a
improvisação, a solidão, o tédio e a rotina. Esses cursos deixam a desejar por
não fazerem para o estudante que pretende ser professor a distinção entre
saberes para serem ensinados - o que deve ser ensinado, os conteúdos - e
saberes para ensinar - aquilo que o professor precisa saber para realmente
ensinar e não apenas passar informações, aqueles saberes que o professor
mobiliza dentro de si, a partir de seus conhecimentos prévios e das referências
pessoais que serão aplicados de acordo com a realidade de cada turma e
sedimentarão sua prática.
Ensinar e aprender
são duas ações que estão interligadas e são interdependentes. Se alguém
aprendeu é porque alguém ensinou e vice versa. A relação humana que se
evidencia no processo ensino-aprendizagem ocorre pela articulação de fatores
internos e externos de quem ensina e de quem aprende.
Tanto no processo
de ensinar como no de aprender, os fatores externos constituem o contexto no
qual os sujeitos – ensinante e aprendente - estão inseridos. Tais fatores são
proporcionados pela realidade que, por sua vez, pode ser modificada pela força
dos fatores internos. Os fatores internos constituem não só as estruturas de
base intelectual e lógica do professor e do aluno, mas também as questões de
ordem afetiva, bem como do desejo, questões essas que o sujeito usa como
resposta à realidade.
Não cobiço nem disputo os teus olhos,
não estou sequer à
espera que me deixes ver através dos teus olhos,
nem sei tampouco se
quero ver o que veem e do modo como veem os teus olhos.
Nada do que possas
ver me levará a ver e a pensar contigo
se eu não for capaz
de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo.
E não me obrigues a
ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu
saiba o que ainda não sou capaz de interrogar.
Protege-me das
incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio
(intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e escrever a minha própria vida.
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