O homem é um ser social, e desde seu nascimento é membro de um grupo, a família, que por sua vez está inserida em outros grupos mais amplos, a sociedade. Essa sociedade, como um grupo organizado de pessoas que interagem e cujas ações são direcionadas para objetivos comuns, é regida por normas e regras que tem por objetivo assegurar sua continuidade. O conjunto de normas e regras que regem um determinado grupo social constituem sua cultura, as quais, sendo transmitidas de geração a geração, garantem a continuidade do mesmo.
Ao submeter-se a essas normas e modalidades de ação o
indivíduo torna-se um sujeito social. Pain (1992) diferencia dois tipos de
socialização: o primeiro refere-se à internalização do conjunto de normas do
superego e a um armazenamento de conhecimentos; já o segundo consiste, não
apenas em internalizar, mas tornar-se consciente de cada modalidade de ação em
si, de onde se originam, como se articulam, quais suas limitações e funções.
O resultado dessa ação consciente e da transformação contínua
do conhecimento é o que configura a aprendizagem. Quando o sujeito se torna
capaz de refletir sobre suas ações ele se torna autônomo. Aí se diz que ele
aprendeu.
Não agir apenas pelas imposições do grupo social, mas
refletir sobre essas ações, ou seja, agir conscientemente e pensar
independentemente, transformando aquele conhecimento armazenado em conhecimento
dinâmico e vivo é o que a sociedade espera de cada um de seus membros.
A transmissão de cultura, que é a melhor definição de
Educação, tem funções paradoxais, ou seja, enquanto oportuniza ao indivíduo
adquirir conhecimento para que se transforme, se liberte e se torne sujeito
independente, a fim de permitir a continuidade do homem como ser histórico e
social, ao mesmo tempo procura moldar esse mesmo indivíduo dentro dos padrões
do sistema vigente no momento, visando a sobrevivência desse sistema. A
aprendizagem assume então dois aspectos: ao mesmo tempo em que possibilita a
libertação do sujeito pela conscientização, ela aliena e oprime (PAIN, 1992).
A missão da escola, como principal instrumento da transmissão
de conhecimentos, é cumprir a função primordial da educação, isto é, tornar o
sujeito capaz de agir conscientemente na transformação do conhecimento. No
entanto, a escola oprime mais do que facilita o desenvolvimento da criança, na
medida em que lhe ensina a pensar erradamente e lhe poda a espontaneidade,
submetendo-a a normas de rendimento e eficácia ou a métodos pedagógicos da
moda. Assim, ela humilha, ameaça e desencoraja mais do que liberta ou encoraja
a criança (FONSECA, 1995)
O indivíduo que não transforma o conhecimento que lhe é
transmitido, não se liberta, não se torna independente e não se reconhece como
sujeito histórico e social. Não aprende e não será capaz de transmitir o
conhecimento a outro, provocando a
ruptura do processo.
O que dizer então do indivíduo que não se enquadra nos
padrões educacionais estabelecidos pela sociedade? Esse também não aprende.
Ora, a sociedade não pode correr o risco de ter uma ruptura
no processo de transmissão de cultura. Ela, então, põe à margem esse sujeito
que não funciona, como uma peça defeituosa que precisa de reparo.
Segundo Pain (1992) o sujeito que não aprende não realiza
nenhuma das funções sociais da educação, explicitando o fracasso da mesma e, ao
mesmo tempo sucumbindo a esse fracasso.
Observa-se então a extrema importância da aprendizagem para a
sociedade e o peso da responsabilidade colocado unicamente sobre os ombros
daquele que não aprende. A sociedade como um todo e a escola como parte desta,
ainda não reconhecem totalmente sua parcela de responsabilidade.
