quarta-feira, 24 de setembro de 2014

APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO (Parte I)


        O homem é um ser social, e desde seu nascimento é membro de um grupo, a família, que por sua vez está inserida em outros grupos mais amplos, a sociedade. Essa sociedade, como um grupo organizado de pessoas que interagem e cujas ações são direcionadas para objetivos comuns, é regida por normas e regras que tem por objetivo assegurar sua continuidade. O conjunto de normas e regras que regem um determinado grupo social constituem sua cultura, as quais, sendo transmitidas de geração a geração, garantem a continuidade do mesmo.
Ao submeter-se a essas normas e modalidades de ação o indivíduo torna-se um sujeito social. Pain (1992) diferencia dois tipos de socialização: o primeiro refere-se à internalização do conjunto de normas do superego e a um armazenamento de conhecimentos; já o segundo consiste, não apenas em internalizar, mas tornar-se consciente de cada modalidade de ação em si, de onde se originam, como se articulam, quais suas limitações e funções.
O resultado dessa ação consciente e da transformação contínua do conhecimento é o que configura a aprendizagem. Quando o sujeito se torna capaz de refletir sobre suas ações ele se torna autônomo. Aí se diz que ele aprendeu.
Não agir apenas pelas imposições do grupo social, mas refletir sobre essas ações, ou seja, agir conscientemente e pensar independentemente, transformando aquele conhecimento armazenado em conhecimento dinâmico e vivo é o que a sociedade espera de cada um de seus membros.
A transmissão de cultura, que é a melhor definição de Educação, tem funções paradoxais, ou seja, enquanto oportuniza ao indivíduo adquirir conhecimento para que se transforme, se liberte e se torne sujeito independente, a fim de permitir a continuidade do homem como ser histórico e social, ao mesmo tempo procura moldar esse mesmo indivíduo dentro dos padrões do sistema vigente no momento, visando a sobrevivência desse sistema. A aprendizagem assume então dois aspectos: ao mesmo tempo em que possibilita a libertação do sujeito pela conscientização, ela aliena e oprime (PAIN, 1992).
A missão da escola, como principal instrumento da transmissão de conhecimentos, é cumprir a função primordial da educação, isto é, tornar o sujeito capaz de agir conscientemente na transformação do conhecimento. No entanto, a escola oprime mais do que facilita o desenvolvimento da criança, na medida em que lhe ensina a pensar erradamente e lhe poda a espontaneidade, submetendo-a a normas de rendimento e eficácia ou a métodos pedagógicos da moda. Assim, ela humilha, ameaça e desencoraja mais do que liberta ou encoraja a criança (FONSECA, 1995)
O indivíduo que não transforma o conhecimento que lhe é transmitido, não se liberta, não se torna independente e não se reconhece como sujeito histórico e social. Não aprende e não será capaz de transmitir o conhecimento  a outro, provocando a ruptura do processo.
O que dizer então do indivíduo que não se enquadra nos padrões educacionais estabelecidos pela sociedade? Esse também não aprende.
Ora, a sociedade não pode correr o risco de ter uma ruptura no processo de transmissão de cultura. Ela, então, põe à margem esse sujeito que não funciona, como uma peça defeituosa que precisa de reparo.
Segundo Pain (1992) o sujeito que não aprende não realiza nenhuma das funções sociais da educação, explicitando o fracasso da mesma e, ao mesmo tempo sucumbindo a esse fracasso.
Observa-se então a extrema importância da aprendizagem para a sociedade e o peso da responsabilidade colocado unicamente sobre os ombros daquele que não aprende. A sociedade como um todo e a escola como parte desta, ainda não reconhecem totalmente sua parcela de responsabilidade.




APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO (Parte II)

A aprendizagem é vital para a continuidade da sociedade. Nos primórdios da humanidade o homem vivia em pequenos grupos nômades que sobreviviam da caça. O crescimento dos grupos obrigou-os a se fixar e estabelecerem sítios onde o homem teve que aprender a domesticar animais e trabalhar a terra. A sociedade passou então pela primeira revolução - a agrícola. Com o surgimento das grandes cidades veio a segunda revolução - a industrial e aí a aprendizagem foi direcionada para a qualificação profissional com fins de especializar a mão de obra nos requisitos tecnológicos da nova ordem (EGARTER, 2003).
Essa tecnologia, cada vez mais sofisticada, exige que o conhecimento acumulado seja transmitido cada vez mais rápido, fazendo com que o que foi aprendido ontem seja obsoleto amanhã. Nesta situação o indivíduo precisa estar sempre se reeducando e reaprendendo.
Segundo Fonseca (2001), o século XXI será marcado por quebras de paradigmas, principalmente no campo da educação, que influenciarão a economia global. Citando grandes economistas futuristas como: Toffler; Nasbitt; Peters; Davidow e Malone, o autor analisa as mudanças na economia mundial nos próximos anos, observando as transformações pelas quais a sociedade vem passando através das grandes revoluções - agrícola, industrial e, atualmente, na tecnologia da informação e conclui que essas mudanças atingirão o campo dos negócios, passando inevitavelmente pelos recursos humanos.
“A economia dita tradicional e centralizada vai ser abalada (o verdadeiro choque do futuro) por uma inevitável revolução tecnológica, cada vez mais centrada na capacidade de aprender e de produzir inovação e criatividade. A propriedade intelectual e a educabilidade cognitiva das organizações vão igualar, senão superar, no futuro, a produção de bens de consumo” (FONSECA, 2001, p. 15).
Vive-se a era da informação e da aprendizagem acelerada. A qualificação profissional em si e a formação centrada apenas na mão de obra não serão suficientes, o que se sabe hoje não garante o sucesso amanhã. A sociedade está despertando para o fato de que as competências cognitivas do indivíduo, sua capacidade de aprender a aprender e reaprender, ou o que Fonseca (2001) chama de educabilidade cognitiva, são mais importantes.
A educabilidade cognitiva provocará a criação de novos postos de trabalho e a extinção de outros e os trabalhadores que se mantiverem passivos, repetitivos e não se adaptarem serão considerados desqualificados, ficando fora do mercado de trabalho e marginalizados. Este é um grande desfio a ser enfrentado pelos  sistemas educativos, incluindo os sistemas de qualificação profissional, o que exigirá quebra de paradigmas e a mudança na forma de pensar, principalmente de políticos (FONSECA, 2001).
Estará a Escola como instituição, preparada para essas mudanças? A educação atual não pode passar ao largo das novas exigências da sociedade.
Novas profissões serão criadas enquanto outras desaparecerão. Entre as que permanecerão está a de professor. Porém, o professor, como um trabalhador qualquer estará obrigado a acompanhar as mudanças. Ele também terá que reaprender, sob pena de ser deixado à margem. E, mais difícil ainda, o professor deverá ser capaz de preparar seu aluno para enfrentar os novos desafios, ensiná-lo a pensar independentemente e agir conscientemente. Ou seja, o professor, sendo um educador, deverá cumprir aquela função primeira da educação, qual seja a de libertar o homem. Mas para isso ele terá que se libertar primeiro.

Referências
EGARTER, E. J. O Caminho do Conhecimento. Psicopedagogia On-line, São Paulo. Disponível em: <http:// www.psicopedagogia.com.br/artigos>  Acesso em: 19 de março de 2013

FONSECA, V. Aprender e Reaprender: Educabilidade Cognitiva no século 21. Série Educação, Aprendizagem e Cognição. São Paulo: Editora Salesiana, 2001

PAIN, S. Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. 4ª. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. P. 21 - 26



terça-feira, 23 de setembro de 2014

DESEJO DE APRENDER E DESEJO DE ENSINAR


























A libertação da inteligência aprisionada, somente poderá dar-se através do encontro com o perdido prazer de aprender. Por tal razão cremos que nossa principal tarefa com relação aos pacientes é ajudá-los a recuperar o prazer de aprender; e da mesma forma pretendemos, para nós mesmos, recuperar o prazer de trabalhar aprendendo e de aprender trabalhando.

                                             Alícia Fernandez

É comum ouvir de professores e professoras que tal aluno não aprende por que não tem interesse. A eles e elas respondo que estão meio certos. Realmente os alunos precisam de interesse, mas não é o que lhes falta. Na verdade eles já o têm e não sabem porque está guardado, escondidinho lá dentro. O que é preciso é um estímulo que faça germinar esse interesse, como o adubo e a água fazem germinar a semente escondida na terra.
Se o interesse não é aparente é por que não há desejo. Então, é preciso despertar esse desejo.
Há poucos dias postamos uma foto com duas frases que explicam bem o que digo:
Segundo Howard Gardner, “Todos os indivíduos têm potencial para ser criativos, mas só serão se o desejarem” e Françoise Dolto responde: “Nosso papel não é o de desejar algo para alguém, mas o de ser aquele graças a quem ele pode chegar até seu desejo.”
Concordo com Dolto. O interesse – e com ele o desejo – está latente dentro de cada um e cabe a nós professores sermos o instrumento pelo qual nosso aluno descubra seu desejo de aprender. Mas para isso é necessário que descubramos nosso desejo de ensinar.
Em um texto da psicopedagoga argentina Alícia Fernandez, uma garotinha tentando explicar para a irmã o que é aprender diz:
É... como quando papai me ensinou a andar de bicicleta. Eu queria muito andar de bicicleta. Então... papai me deu uma bici... menor do que a dele. Ajudou-me a subir. A bici sozinha cai, tem que segurar andando...
Dá um pouco de medo, mas papai segurou a bici. Ele não subiu na bicicleta grande e disse: "Assim se anda de bici...”, não, ele ficou correndo ao meu lado sempre segurando a bici... muitos dias, de repente, sem que eu me desse conta disso, soltou a bici e seguiu correndo ao meu lado. Então eu disse: “Ah! Aprendi!".
 Assim como o pai da garotinha, o professor não precisa fazer pelo aluno. Antes, ele o acompanha, segue ao seu lado, estimula-o, encoraja-o e desafia-o dentro de seus limites.
O bom aluno teve um bom professor. O que faz um professor ser bom? Dominar bem o conteúdo, dizem alguns. Ser amigo dos alunos, dizem outros. “Botar moral”, acrescentam também.
Estão certos todos. Um bom professor tem que saber o que vai ensinar, tem que conhecer como seus alunos aprendem para ensiná-los e tem que saber por ordem na casa. Mas o bom professor tem que ter antes de tudo o desejo de ensinar.
O sociólogo suíço Phelippe Perrenoud afirma que o sucesso e o fracasso escolar não dependem unicamente do ambiente da escola. Na sua visão, o objetivo de ensinar é preparar o aluno e torná-lo capaz de mobilizar suas aquisições escolares fora da escola, independentemente de quaisquer situações.
Perrenoud critica os cursos de formação inicial de professores por não considerarem o aluno - futuro professor - e sua subjetividade e por não tratarem, com a devida importância, questões essenciais para a prática profissional. Entre outras questões, que chama de não ditos, o autor cita o medo, a sedução, o poder, o conflito, a improvisação, a solidão, o tédio e a rotina. Esses cursos deixam a desejar por não fazerem para o estudante que pretende ser professor a distinção entre saberes para serem ensinados - o que deve ser ensinado, os conteúdos - e saberes para ensinar - aquilo que o professor precisa saber para realmente ensinar e não apenas passar informações, aqueles saberes que o professor mobiliza dentro de si, a partir de seus conhecimentos prévios e das referências pessoais que serão aplicados de acordo com a realidade de cada turma e sedimentarão sua prática.
Ensinar e aprender são duas ações que estão interligadas e são interdependentes. Se alguém aprendeu é porque alguém ensinou e vice versa. A relação humana que se evidencia no processo ensino-aprendizagem ocorre pela articulação de fatores internos e externos de quem ensina e de quem aprende.
Tanto no processo de ensinar como no de aprender, os fatores externos constituem o contexto no qual os sujeitos – ensinante e aprendente - estão inseridos. Tais fatores são proporcionados pela realidade que, por sua vez, pode ser modificada pela força dos fatores internos. Os fatores internos constituem não só as estruturas de base intelectual e lógica do professor e do aluno, mas também as questões de ordem afetiva, bem como do desejo, questões essas que o sujeito usa como resposta à realidade.

Não cobiço nem disputo os teus olhos, 
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos,
nem sei tampouco se quero ver o que veem e do modo como veem os teus olhos.
Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo.
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar.
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e escrever a minha própria vida.


(Extraído de: “AS LIÇÕES DE UMA ESCOLA: UMA PONTE PARA MUITO LONGE”. Prefacio escrito por Ademar Ferreira dos Santos, para o livro: ”A ESCOLA QUE SEMPRE SONHEI SEM IMAGINAR QUE PUDESSE EXISTIR“ de Rubem Alves – Campinas, SP: Papirus Editora, 5ª Edição, 2003).